quinta-feira, 25 de março de 2010

Preconceito contra estrangeiros

"Os estrangeiros não são autorizados a entrar sem companhia de japones"
Placa colocada na porta de um estabelecimento japones... Os Sunacos.

A palavra sunako vem da ex­pressão inglesa snack, que quer di­zer lanche. São muito comuns nos Estados Unidos os snack bars, ou lanchonetes, onde se pode degustar diversos tipos de lanches e até bebericar uma cervejinha. Os japoneses emprestaram o ter­mo dos americanos e fizeram algu­mas adaptações, tanto na forma de atendimento em tais estabelecimen­tos, como na decoração do ambien­te. Assim, o interior de um sunako normalmente é pouco iluminado, facilitando algumas intimidades en­tre clientes e acompanhantes. Com algumas mesas dispostas de forma estratégica, rodeadas de confortá­veis poltronas ou sofás, o ambiente não deixa de ser acolhedor.O objetivo é criar uma atmosfera alegre, descontraída, aconchegante, mesclada com uma pitada de intimi­dade, na tentativa de vencer a concorrência acirrada, ao mesmo tempo em que se procura “segurar” os clientes habituais, que quase todos os dias deixam uma parcela do seu salário mensal nesse tipo de estabele­cimento
Não é preciso dizer que tudo o que se consome em um sunako é bem mais caro, ou até mais que o dobro, daquilo que se paga nos esta­belecimentos convencionais. Assim, uma cerveja de 500 ml pode custar de ¥600 a ¥800, enquanto num su­permercado não custa mais que ¥330.Diferente dos snack bars dos Estados Unidos, onde o cliente normalmente pede uísque em doses, nos sunakos japoneses o uísque é servido por garrafa, em cujo gargalo vem pendu­rada uma plaquinha com um nome pelo qual o cliente é conhecido no estabelecimento. Tal regalia não sai­rá por menos de ¥5.000. Assim, o cliente que se senta a uma mesa é logo rodeado de mulheres que o encorajam a beber, pois a fonte maior de lucro dos sunakos está no consumo de bebida por parte dos clientes.Por que esses estabelecimentos são tão freqüentados, apesar dos pre­ços extorsivos? Uma explicação básica tem muito a ver com a índole vaidosa do ser humano. O sunako é aquele lugar onde qualquer homem com algum dinheiro no bolso se sente um rei, tendo ao seu lado várias acompa­nhantes que são ensinadas a servi-lo com certa submissão, a diverti-lo, a ouvir atentamente suas lamúrias, a aturá-lo quando fica bêbado, e a fazê-lo sentir-se como se ele fosse realmente muito importante - nem que seja apenas por algumas horas.Dependendo do cliente, de quan­to ele costuma gastar ou da assidui­dade ao estabelecimento, há até al­gumas regalias a mais, chegando a ser levado de táxi para casa com direito a acompanhante. Mesmo porque, a essa altura do campeonato, ele está tão bêbado que não consegue andar dois passos sem voltar três. Dirigir, então, nem pensar!
Os sunakos cumprem, reconhecidamente, uma função social importante na vida de muitos aqui no Japão, sejam estrangeiros ou japoneses. Hoje, as visitas quase diárias a um sunako preferido faz parte principalmente da vida de milhões de sararimen, os trabalhadores engravatados de escritório que, após o expediente normal de trabalho, dão uma esticadinha até tais estabelecimentos antes de voltar para casa.A finalidade dessas visitas é a confraternização entre colegas de trabalho, a busca do alívio das tensões acumuladas durante o dia e uma oportunidade para reforçar aquela péssima imagem que todos têm do chefe em comum. Para atingirem esse objetivo, os japoneses se encharcam de cerveja e uísque, o que proporcionam a eles coragem suficiente para falar mal do chefe e até bolinarem as companion, as mulheres especialmente contratadas para servirem bebidas e divertir os clientes.Como não poderia deixar de ser, o brasileiro, de uma forma geral, tem outra visão desse tipo de entretenimento. Assim, a conotação sexual associada ao sunako é inevitável, devido à forma um tanto íntima pela qual as mulheres atendem os clientes em tais estabelecimentos.Naturalmente que há várias classes de sunako, desde os mais simples, nos quais os clientes são servidos num balcão por mulheres que estão do outro lado, e nas quais não pode tocar, até aqueles onde as atendentes são estrangeiras, mais liberais, e que sentam no colo dos clientes e até topam fazer programas depois do expediente.
(*) Reportagem de Levi F. Araújo publicada originalmente no jornal Nova Visão do Japão de 24 de agosto de 1997.

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